domingo, 5 de fevereiro de 2017

Bordejando


Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece. 



O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo. 



Trémulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida? 



Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


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Uns "Legos" e um poema do O'Neill ...


Está tudo conformado
ao triste proprietário.
Mecânicas ovelhas,
na erva de plástico,
têm pastor de pilhas
e cão pré-fabricado.
Flores marginam esse
às peças-soltas do prado.
Eléctricas abelhas,
obreiras sem contrato,
daquele herbário extraem
um mel supermercado.
A malhada, no estábulo,
quase manga de alpaca
(é A VACA, sabias?),
dá leite engarrafado.
No céu (para colorir)
a nuvem (pontual),
aguarda a vez de ser
chovida no nabal,
enquanto o Sol dardeja
na eira proverbial.
Já tudo afeiçoado
ao bom do proprietário
(ervas, bichos, moral),
ele conta com os seus
e espera sempre em Deus.






"- Deste corda ao pardal?" de Alexandre O'Neill



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domingo, 1 de janeiro de 2017

2016 ... adeus!





Morre David Bowie. Morre Prince. Morre Leonard Cohen, morre George Michael. Mas Ágata canta Hallelujah e Maria Leal descobre entroncamentos sem fim.
Em janeiro, Maria de Belém diz que se for eleita Presidente levará Chefes de Estado a almoçar a lares de idosos. Marcelo ganha as eleições e acaba a brindar sozinho à mesa com os Reis de Espanha. Bloco de Esquerda não aplaude porque está demasiado ocupado a mudar cartão de cidadão para cartão da cidadã.
Benfica mantém a sua cavalgada triunfal no futebol nacional, reduzindo Jorge Jesus a “adrenalina negativa”. Tal como o Sporting, a requalificação “verde” na Segunda Circular cai ao minuto oitchenta e oitcho. Mas as restantes obras em Lisboa são de parar o trânsito.
Morre Ettore Scola. Morre Zaha Hadid. Morre Nuno Teotónio Pereira. Morre Fidel. Morre Umberto Eco. Morre Michael Cimino. Morre Gene Wilder, Carrie Fisher e sua mãe Debbie Reynolds. Morre Cruyff e João Havelange.
Jerónimo Sousa descreve Marisa Matias como “engraçadinha”, Pedro Arroja compara o Bloco de Esquerda a “mulheres esganiçadas”, o movimento Bela Recatada e do Lar criado no Brasil torna-se viral, e o PCP aproveita para se juntar à direita no chumbo aos votos de condenação de Angola no caso Luaty Beirão.
A Geringonça, conhecida como o “bebé com ADN de três pais”, revela-se um sucesso, e o país descobre um Presidente da República que faz presenças e distribui condecorações.
A paz social é alcançada apesar de Santos Silva comparar os sindicatos a uma “feira de gado” e João Soares querer dar umas bofetadas a colunistas do Público.
A TAP corta 4 voos para o Porto mas Rui Moreira fica com os Mirós. Aeroporto de Lisboa passa a chamar-se Humberto Delgado. E subitamente, passageiros argelinos começam a invadir a pista do aeroporto como se fosse a Black Friday ou o Pokemon Go.
Morre Almeida Santos. Morre José Lello. Morre Francisco Nicholson e Nicolau Breyner. Mas José Pedro Gomes sai do coma.
Taxistas param o país no protesto contra a Uber mas ao fim da noite estão todos a ver o Prós e o Contras e a mamar jolas. Portugal não vai ao Eurofestival da Canção mas a carta de condução ganha 12 pontos e Portugal ganha o Euro 2016 num jogo em que Ronaldo se estreia como treinador.
Jovem derruba estátua de D. Sebastião no Rossio, turista derruba estátua no museu de Arte Antiga, turista atira-se ao mar para apanhar um barco na Madeira e Mário Soares cai em coma profundo.
Messi falha um penalti a abandona a selecção argentina. Ronaldo falha imensos, não desiste, e acaba por ganhar a Champions, o Euro 2016, abrir hotéis e arremessar o microfone da CMTV para o lago. Se perdermos que s’a foda.
Heróis populares? O dono do restaurante de kebab no Cais Sodré, o casal que ofereceu mil litros de água na A1, a Telma Monteiro que trouxe bronze do Rio, o Dylan que não quis saber do Nobel, e o Pedro Dias que durante um mês só comeu nozes, castanhas e kiwis.
Vilões do ano? O “arquitecto” José António Saraiva, a carteirista Quina, os filhos do embaixador iraquiano em Portugal e a taróloga da SIC que aconselhou “paciência” a uma vítima de violência doméstica. Já dizia o Trump: Protect your pussy!
Atentados Je Suis em Nice, Bruxelas, Istambul, Berlim, para não falar do embaixador russo morto em Ancara, do ataque a uma discoteca gay na Florida e da tragédia do Chapecoense na Colômbia. Os humanistas de sofá pedem para olharmos mais para Alepo, mas estamos todos distraídos com os tweets de Trump.
Trends do ano? O Mannequin Challenge, o Panama Papers e as opiniões sobre o Burquini.
Humor debaixo de fogo. RAP afirma que já não faz sentido anedotas com “mariconços e marrecos”, Pedro Fernandes e Franco Bastos pedem desculpa a Pinto da Costa, Nuno Markl diz que nunca quis ofender os transmontanos, Henrique Raposo é persona non grata no Alentejo e José António Saraiva é odiado por todos. Não admira que Rui Sinel de Cordes tenha decidido emigrar para Inglaterra.
A Madeira ardeu, o festival Andanças queimou, os treinos dos Comandos mataram, a discussão entre apoio ao ensino privado e público ferveu. Assunção Cristas, criadora do soro da verdade, do radicalismo do amor e do vestido branco com ou sem kiwis, disse que devíamos “sacrificar escolas públicas”.
Saídas limpas (ou talvez não) de Cavaco, de Hillary Clinton, da nota de 500 euros, do Brexit, do Galaxy Note 7, da Dilma, do Elefante Branco, da Cornucópia e da Académica, que desceu de divisão.
Portugueses correm para a inauguração do MAAT, do túnel do Marão, do Galo de Barcelos gigante da Joana Vasconcelos, do perdão fiscal e de qualquer celebridade RIP que tenha morrido nos últimos dez minutos.
Temas fracturantes? A Embaixada em Paris que recusa receber Tony Carreira, o McDonald’s que inaugura no Chiado, os voos oferecidos pela GALP, o fim do casal Brangelina, e os despenteados da Websummit.
No início do ano Portugal cai seis lugares no ranking da felicidade mas depois Marcelo é eleito, a selecção vence o Euro 2016, a nossa gastronomia ganha nove estrelas Michelin e Guterres é eleito Secretário Geral da ONU. O ano acaba com Portugal na Champions da Felicidade, uma espécie de pós-verdade dos pobres.
2016 morre no final do ano vítima de doença prolongada ou talvez um entroncamento sem fim. Tchau querido!

Texto de “MC Somsen” (… retirado de Facebook)


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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Sem venda nos olhos ...



Dizem que o reino anda mal governado, que nele está de menos a justiça, e não reparam que ela está como deve estar, com sua venda nos olhos, sua balança e sua espada, que mais queríamos nós, era o que faltava, sermos os tecelões da faixa, os aferidores dos pesos e os alfagemes do cutelo, constantemente remendando os buracos, restituindo as quebras, amolando os fios, e enfim perguntando ao justiçado se vai contente com a justiça que se lhe faz, ganhado ou perdido o pleito. Dos julgamentos do santo ofício não se fala aqui, que esse tem bem aberto os olhos, em vez da balança um ramo de oliveira, e uma espada afiada onde a outra é romba e com bocas. Há quem julgue que o raminho é da paz, quando está muito patente que se trata do primeiro graveto da futura pilha de lenha, ou te corto, ou te queimo, por isso é havendo que faltar à lei, mais vale apunhalar a mulher, por suspeita de infidelidade, que não honrar os fiéis defuntos, a questão é ter padrinhos que desculpem o homicídio e mil cruzados para pôr na balança, nem é para outra coisa que a justiça a leva na mão. Castiguem-se lá os negros e os vilões para que não se perca o valor do exemplo, mas honre-se a gente de bem e de bens, não lhe exigindo que pague as dívidas contraídas, que renuncie à vingança, que emende o ódio, e, correndo pleitos, por não se poderem evitar de todo, venham a rabulice, a trapaça, a apelação, a praxe, os ambages, para que vença tarde quem por justiça justa deveria vencer cedo, para quem tarde perca quem deveria perder logo. É que, entretanto, vão-se mungindo as tetas do bom leite que é o dinheiro, requeijão precioso, supremo queijo, manjar de meirinho e solicitador, de advogado e inquiridor, de testemunha e julgador, se falta algum é porque o esqueceu o padre António Vieira e agora não lembra.



José Saramago, in Memorial do Convento



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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O amor em visita


Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas -
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos,navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeia o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distãncia amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura,
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza partida,
os ombros violados,
o sangue penetrado de paredes nuas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
se transfiguram, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua sombra e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém,
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
por teu poder angélico e fechado.

Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.

Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria dos instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa gratidão.


... palavras de Herberto Helder


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sábado, 19 de novembro de 2016

Acusações





Ergueu-se enorme, vermelha de raiva, uma lua acusadora.
Encheu-se das promessas que incumprimos; inchou na solidão dos encontros a que faltámos.
Sobre esta minha praia e sobre aquela tua baía, ergueu-se, acusadora, a lua que traímos. 
Impõe-se, agora, alta e plena, ao negro profundo que é o espelho vazio do nosso desamor. 
Pendurada num resto de céu, denuncia ao mundo o nosso crime. 
E escurece-nos. 
A lua sempre enche de negro aqueles a quem, por mil e uma noites, iluminou. 


Trazido do fantástico galeão da Cuca, a pirata, que é o melhor sítio para se ver a lua (neste navio)

O Homem do Violino


























Quando há dias fui ver e ouvir jazz com um grupo francês que dá pelo nome de Les Kostards, deparei-me com este violinista que, para além de surpreender pela beleza do som que arrancava do seu violino, inundou a sala com uma simpatia e humor que guardo no canto da memória reservado às coisas boas. 
O artista é LAURENT ZELLER.
Não é que os seus companheiros não merecessem uma reportagem fotográfica, mas a minha câmara engraçou com o Laurent e foi ele que ficou neste registo do homem do violino. A sala escura e uma "Kodak" de bolso não permitiram registos de grande qualidade. Mas o que pretendi registar e deixar-vos aqui não é arte fotográfica. São apenas registos de momentos de um artista que, como podem ver, não podia deixar de ser fotografado


Já antes por aqui tinha deixado o Homem da Concertina
Hoje deixo o Homem do Violino.
Se quiserem deliciar-se com um pouco da música de "Les Kostards", podem ouvi-los na sua PÁGINA OFICIAL ou vê-los, por exemplo AQUI.


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domingo, 6 de novembro de 2016

Esta gente


Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco 


Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis


Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre 


Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome 


E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada 


Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo 



 Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"



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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

e encerrar-me todo num poema, não em língua plana mas em língua plena



queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima

Herberto Helder, A Morte sem Mestre