sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Moçoilas (... e o velho GAC)




Estas “Moçoilas” cantam, normalmente à capela, músicas tradicionais do Algarve, sobretudo da Serra do Caldeirão. 
Por vezes, fazem algumas incursões ao Alentejo e à raia de Espanha... e também cantam e encantam com interessantes memórias.

Oiçam esta …

Senhores,
sou mulher de trabalho,
e falo com poucas maneiras,
porque as maneiras,
são como a luva que calça o ladrão.

Ás vezes,
eu ponho-me a pensar,
na vida das trabalhadeiras,
e nas canseiras,
com que ganhamos a fome e o pão.


Já agora, e como mera curiosidade, este poema, que as Moçoilas não cantam na íntegra, continuava assim quando no distante período revolucionário era cantado pelo Grupo de Ação Cultural mais conhecido por GAC:

Há tanta gente como eu,
tantos que pensam como eu,
e a minoria que nos rouba e mente,
são os burgueses que mandam na gente.

Cravos, gravatas e bonés,
nunca vi tantos rapa-pés,
enquanto for o burguês a mandar,
é o fascismo que vai regressar.

Senhores,
sou mulher de trabalho,
e falo paras as trabalhadeiras,
sem as maneiras,
dos democratas da governação.

Ás vezes,
cheguei a acreditar,
que a nova democracia,
acabaria,
com o fascismo e a exploração.

Mas se isto assim continuar,
com os patrões a comandar,
o desemprego e a carestia,
são os canhões que nos querem matar.

E enquanto nos dizem para votar,
já está o burguês a preparar,
outro fascismo de cara mudada,
enquanto a gente anda assim enganada.

Senhores,
sou mulher de trabalho,
estou farta dessas brincadeiras,
são só maneiras,
de nos prenderem com outro cangaço.

Ás vezes,
eu ponho-me a falar,
e digo às minhas companheiras,
outras maneiras,
de nos unirmos para dar mais um passo.

Vamos lutar e sanear,
vamos ser nós a comandar,
com esta luta por um mundo novo,
e os operários à frente a guiar.

E há tanta gente para lutar,
pela democracia popular,
que não há falsos amigos do povo,
que nos impeçam de um dia ganhar.

E há tanta gente para lutar,
pela democracia popular,
que não há falsos amigos do povo,
que nos impeçam de um dia ganhar.

Escutemos:


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Sean Riley






Quando o Afonso se disfarça de Sean Riley







quarta-feira, 25 de setembro de 2019

“823 Nadar nú”


Fui ver o Ivo Canelas no seu fantástico monólogo “Todas as Coisas Maravilhosas”.


Logo à entrada fui premiado com um misterioso papel que o Ivo me entregou cujo estranho conteúdo era:
823  
Nadar nú

A peça de teatro continua por aí em exibição, recomendo-a, pelo que não vou acrescentar nada mais para que vão lá ver o Ivo e a relevância de tão enigmática mensagem.

A sério, vão!



Sucede que um dos momentos altos da peça passa por esta música:

“Road To Joy” dos Bright Eyes.


“Road To Joy”, que o Conor Oberst compôs para o álbum “I'm Wide Awake, It's Morning” reza  assim:

The sun came up with no conclusions
Flowers sleepin' in their beds
The city cemetary's hummin'
I'm wide awake, its mornin'

I have my drugs, I have my woman
they keep away my loneliness
My parents, they have their religion
But sleep in seperate houses

I read the body count out of the paper
And now its written all over my face
No one ever plans to sleep out in the gutter
Sometimes thats just the most comfortable place

So I'm drinkin, breathin, writin, singin
Every day I'm on the clock
My mind races with all my longings
But can't keep up with what I got

And so I hope I dont sound too ungratefull
Well, history gave modern man
A telephone to talk to strangers
Machine guns and a camera lense

So when you're asked to fight a war thats over nothing
Its best to join the side thats gonna win
No ones sure how all of this got started
But we're gonna make 'em God damn certain how its gonna end
Oh yah we will, oh yah we will!

Well I could have been a famous singer
If I had some one else's voice
But failures always sounded better
Let's fuck it up boys, make some noise!

The sun came up with no conclusions
Flowers sleepin' in their beds
The city cemetary's hummin'
I'm wide awake, its mornin'!

“Road To Joy” (Estrada para a Diversão) pode ter a seguinte tradução (que poderei melhorar se acharem que não é bem isto …)

O sol nasceu sem conclusões
Flores dormindo nas suas camas
O cemitério da cidade está zumbindo
Eu estou bem acordado, é manhã

Eu tenho as minhas drogas, eu tenho a minha mulher
Que mantêm a minha solidão bem longe
Os meus pais têm a sua religião
Mas dormem em casas separadas

Eu li a contagem dos corpos no jornal
Agora está escrito em todo o meu rosto
Ninguém planeia dormir na sarjeta
Mas às vezes é o lugar mais confortável

Então eu estou bebendo, respirando, escrevendo, cantando
Todos os dias eu sou pontual
Minha mente corre com todos meus desejos
Mas não pode manter o ritmo do que eu tenho

E espero que eu não pareça muito ingrato
Com o que a história deu ao homem moderno
Um telefone para falar com estranhos
Metralhadoras e objetivas

Então quando tu pediste para lutar numa guerra baseada em nada
É melhor unir-me ao lado que vai vencer
Ninguém tem a certeza de como tudo isto começou
Mas nós vamos fazê-los ter a maldita certeza de como isto vai terminar
Oh sim, nós vamos, oh sim nós vamos!!

Bem, eu poderia ter sido um cantor famoso
Se eu tivesse a voz de outra pessoa
Mas o fracasso sempre soa melhor
Vamos foder isto tudo rapazes, façam barulho!

O sol nasceu sem conclusões
Flores dormindo nas suas camas
O cemitério da cidade está zumbindo
Eu estou bem acordado, é manhã

Já agora … já viram o Ivo Canelas a cantar?
Ele é mais conhecido pelos seus papeis no cinema´, no teatro e nalgumas séries em papéis marcantes e intensos, como estes:

Mas recordo-o no papel de Xavier na série “Filhos do Rock” onde, a determinada altura, cantou para a sua amada e maltratada Simone. Alguém se lembra disto?

Para ouvir o Xavier cantar basta verem a partir do minuto 2:50:


O Ivo toca tão mal como eu … mas canta bem melhor!

domingo, 22 de setembro de 2019

O Tim Bernardes e Ela



Quando acorda olha para o lado
Se veste bonita pra ninguém
Chora escondida no banheiro
Pras amigas finge que está bem
Mas eu vejo
Eu vejo

Acha que precisa ser durona
Não dá espaço para a dor passar
Tem um grito preso na garganta
Que não está deixando ela falar
Mas eu ouço
Eu ouço

Quase como que anestesiada
Vai deixando a vida carregar
Ela sentiu mais do que aguentava
Não quer sentir nada nunca mais
Mas eu sinto
Eu sinto

Qualquer um que encontra ela na rua
Vê que alguma coisa se apagou
Ela está ficando diferente
Acho que ninguém a avisou
E eu digo
Eu digo



Foto: Jorge Gomes/CML     


sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Atitudi … A A A A A A A Atitudi!!!!!!

Bom dia
Gostava de m'apresentar
Sou o General Zé
E vim falar contra o estabelecimento
Por uma menta-lidade
E por uma grandessíssima atitudi
Atitudi
Atitudi
Atitudi
A-A-A-A-A-Atitudi













Lentidão no coração
O sistema é um problema
Radical horizontal
Secura na agricultura
Assassina Catarina
Injustiça da cortiça
Sacrifício no comício
À torreira da soleira
Faz chichi no javali
Compota de bolota
Atitudi
Atitudi
A-A-A-A-A-Atitudi













Quem não come passa fome
Há mais mágoa do que água
CEE dá cá o pé
Criminoso andrajoso
Esquecimento isolamento
Lixeira da Vidigueira
Atitudi
Atitudi
A-A-A-A-A-Atitudi
Atitudi
Atitudi
É por trás é pela frente
É de todas as maneras
Ai
O melhor é começar do princípio
Que é para falarmos mesmo a sério
Atitudi
Atitudi
Atitudi
A-A-A-A-A-Atitudi













Lentidão no coração
O sistema é um problema
Radical horizontal
Secura na agricultura
Assassina Catarina
Injustiça da cortiça
Sacrifício no comício
À torreira da soleira
Faz chichi o javali
Há compota de bolota
Quem não come passa fome
Atitudi
Atitudi
Atitudi
Atitudi
Atitudi
Atitudi
A-A-A-A-A-Atitudi



Como eu estava dizendo em forma de escrita
Queria deixar um beijo para a minha mãe
Porque se não fosse ela eu teria sido um grandessíssimo artista
Obrigado mãezinha
Atitudi
Atitudi
Atitudi
Atitudi
Atitudi


... e ao vivo ...


quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Quero é viver






Quando tanto se fala do António Variações, deixo aqui este já batido desvio artístico deste moço que é um dos nossos grandes nomes do fado.

Vou viver
até quando eu não sei
que me importa o que serei
quero é viver

Amanhã, espero sempre um amanhã
e acredito que será
mais um prazer

e a vida é sempre uma curiosidade
que me desperta com a idade
interessa-me o que está para vir
a vida em mim é sempre uma certeza
que nasce da minha riqueza
do meu prazer em descobrir

encontrar, renovar, vou fugir ou repetir

vou viver,
até quando, eu não sei
que me importa o que serei
quero é viver
amanhã, espero sempre um amanhã
e acredito que será mais um prazer



Mas o Camané é, mais que tudo (e este tudo vai sendo muito e diverso ...) FADO…
E, quando um poema de Pedro Homem de Melo se une com uma música de Alain Oulman, dá nisto. Um hino numa meritória voz.

Sei de um rio …
Sei de um rio
Em que as únicas estrelas
Nele, sempre debruçadas
São as luzes da cidade
Sei de um rio…
Sei de um rio
Rio onde a própria mentira
Tem o sabor da verdade
Sei de um rio
Meu amor, dá-me os teus lábios!
Dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede!
Mas o sonho continua…
E a minha boca (até quando?)
Ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
"- Sei de um rio…
Sei de um rio…"
Sei de um rio…
Ai!
Até quando?


terça-feira, 17 de setembro de 2019

Tanto espaço






Não sei muito bem o que digo quando digo que gosto de “jazz”.
Mas sim, gosto de “jazz” …
Há quem não goste, deteste.
Mas não acredito que haja alguém, um único ser humano, UM … que depois de ouvir este hino do Mário Laginha Trio, consiga dizer que não gosta.
O tal “jazz” que me apaixona também é isto …
Deliciem-se …


segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Bailando



Yo adivino el parpadeo
De las luces que a lo lejos,
Van marcando mi retorno.
Son las mismas que alumbraron,
Con sus pálidos reflejos,
Hondas horas de dolor.
Y aunque no quise el regreso,
Siempre se vuelve al primer amor.
La quieta calle donde el eco dijo
"Tuya es su vida, tuyo es su querer",
Bajo el burlón mirar de las estrellas
Que con indiferencia hoy me ven volver.

Volver,
Con la frente marchita,
Las nieves del tiempo
Platearon mi sien.
Sentir, que es un soplo la vida,
Que veinte años no es nada,
Que febril la mirada
Errante en las sombras
Te busca y te nombra.
Vivir,
Con el alma aferrada
A un dulce recuerdo,
Que lloro otra vez.

Tengo miedo del encuentro
Con el pasado que vuelve
A enfrentarse con mi vida.
Tengo miedo de las noches
Que, pobladas de recuerdos,
Encadenan mi soñar.
Pero el viajero que huye,
Tarde o temprano detiene su andar.
Y aunque el olvido que todo lo destruye,
Haya matado mi vieja ilusión,
Guarda escondida una esperanza humilde,
Que es toda la fortuna de mi corazón.



A imagem é da bailaora Maria Jerónimo (fotografada em Lagos a bailar com os "Típicos” - flamenco cintage), no XVIII Festival Flamenco, em 13 de setembro de 2019).
O vídeo é da fabulosa Estrella Morente a cantar "Volver".

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Injuriado!


Se eu só lhe fizesse o bem
Talvez fosse um vício a mais
Você me teria desprezo por fim
Porém não fui tão imprudente
E agora não há francamente
Motivo pra você me injuriar assim

Dinheiro não lhe emprestei
Favores nunca lhe fiz
Não alimentei o seu gênio ruim
Você nada está me devendo
Por isso, meu bem, não entendo
Porque anda agora falando de mim


Se preferirem o original do grande Chico Buarque …


domingo, 28 de julho de 2019

Arrastei-me para o teu lugar … e é em ti que vou ficar



Já é noite e o frio
Está em tudo que se vê
Lá fora ninguém sabe
Que por dentro há vazio
Porque em todos há um espaço
Que por medo não cedeu
Onde a ilusão se esquece
Do que o tempo não previu

Já é noite e o chão
É mais terra pra nascer
A água vai escorrendo
Entre as mãos a percorrer
Todo o espaço entre a sombra
Entre o espaço que restou
Para refazer a vida
No que o tempo não matou

E onde tudo morre tudo pode renascer

Em ti vejo o tempo que passou
E o sangue que correu
Vejo a força que me deu
Quando tudo parou em ti
A tempestade que não há em ti
Arrastei-me para o teu lugar
E é em ti que vou ficar

Já é noite e a sombra
Está em tudo o que se vê
Lá fora ninguém sabe
O que a luz pode fazer
Porque a noite foi tão fria
Que não soube acordar
A noite foi tão dura
E difícil de sarar

E onde tudo morre tudo pode renascer

Em ti vejo o tempo que passou
E o sangue que correu
Vejo a força que me deu
Quando tudo parou em ti
A tempestade que não há em ti
Arrastei-me para o teu lugar
E é em ti que vou ficar

Porque eu descobri a casa onde posso adormecer
Eu já desvendei o mundo e o tempo de perder
Aqui tudo é mais forte e há mais cor no céu maior
Aqui tudo é tão novo tudo pode ser amor

E onde tudo morre tudo volta a nascer

Em ti vejo o tempo que passou
E o sangue que correu
Vejo a força que me deu
Quando tudo parou em ti
A tempestade que não há em ti
Arrastei-me para o teu lugar
E é em ti que vou ficar

Já é dia e a luz
Está em tudo o que se vê
Cá dentro não se ouve
O que lá fora faz chover
Na cidade que há em ti
Encontrei o meu lugar
É em ti que vou ficar


sábado, 27 de julho de 2019

… deixem o pimba em paz …



Cheguei sem avisar
Mais cedo a casa nesse dia
Ia te preparar
O jantar surpresa que tu querias

Mas algo estranho se passava
Tinhas chegado antes de mim
E pelo chão roupa espalhada
E algumas peças de cetim

Eu a tremer subi a escada
Abri a porta e então vi

Na minha cama com ela
Tu e ela no meu quarto
Perdido nos braços dela
Mesmo em frente ao meu retrato

Na minha cama com ela
Tu e ela na loucura
Perdido nos braços dela
E muito mais que uma aventura

O teu corpo junto ao dela
Na minha cama com ela

Hoje quero esquecer
Esse quadro mas não posso
Terei até morrer
Os dois nos lençóis que eram nossos

Tenho o desgosto tatuado
Eternamente desde então
E cada vez esta mais amargo
O dissabor dessa traição

Selei a porta desse quarto
Mas tenho ainda essa visão

Na minha cama com ela
Tu e ela no meu quarto
Perdido nos braços dela
Mesmo em frente ao meu retrato

Na minha cama com ela
Tu e ela na loucura
Perdido nos braços dela
E muito mais que uma aventura

O teu corpo junto ao dela
Na minha cama com ela

Na minha cama com ela
Tu e ela no meu quarto
Perdido nos braços dela
Mesmo em frente ao meu retrato

Na minha cama com ela
Tu e ela na loucura
Perdido nos braços dela
E muito mais que uma aventura

O teu corpo junto ao dela
Na minha cama com ela

Na minha cama com ela
Tu e ela no meu quarto
Perdido nos braços dela
Mesmo em frente ao meu retrato

Na minha cama com ela
Tu e ela na loucura
Perdido nos braços dela
E muito mais que uma aventura

O teu corpo junto ao dela
Na minha cama com ela

Na minha cama com ela
Tu e ela no meu quarto
Perdido nos braços dela…


Se preferirem o original … da grande Mónica Cintra



sexta-feira, 26 de julho de 2019

A estrela que guia o meu coração ...



Tu és a estrela que guia o meu coração
Tu és a estrela que iluminou meu chão
És o sinal de que eu conduzo o destino
Tu és a estrela e eu sou o peregrino
Até aqui foi uma escuridão tão
Dessas que nos faz ser sábios do mundo
Vivi desilusão tão desigual
Que vim dar a minha infância num segundo
Nem sabes tu aquilo que fizeste
Por mim, até por ti quando chegaste
Só sei que ao te ver tu reergueste
O que em mim era só cinza e desgaste
Tu és a estrela que guia o meu coração
Tu és a estrela que iluminou meu chão
És o sinal de que eu conduzo o destino
Tu és a estrela e eu sou o peregrino
Amor que cedeu, mas numa distância
Distância que nos fez acreditar
Que é essa que dá a real importância
À liberdade que é poder e saber amar
Bem mais feliz agora certamente
Vou eu seguindo assim pela vida afora
Não mais estarei sozinha, estou bem crente
Que o teu feixe de luz própria me segue agora
Tu és a estrela que guia o meu coração
Tu és a estrela que iluminou meu chão
És o sinal de que eu conduzo o destino
Tu és a estrela e eu sou o peregrino
Tu és a estrela e eu sou o peregrino


quinta-feira, 25 de julho de 2019

Oh, que saudade eu tenho do cheiro das manhãs de inverno



Se um dia falar de ti
É porque, tu ficaste
Tu marcaste

Se foi bom ou mau
Eu já esqueci
E não, não me lembro mais
De trocar as vogais

Sofre, sofre, ao bater do tempo
Às vezes nem lembro, pra não ficar cinzento
O que é feito desses momentos?

Não é no fado só
Mas que saudade eu tenho

Oh, que saudade eu tenho
Do cheiro das manhãs de inverno
Pensei que fosse eterno

Oh, que saudade eu tenho
Daquelas noites de verão
Havia sempre solução, para nós
Havia

Se um dia voltasse para trás
Então eu, deixava-me ficar
Faz tempo a sonhar

Fazer tudo de novo, outra vez
Agora eu vou aproveitar
Para te encontrar

Mas sofre, sofre, ao bater do tempo
Às vezes nem lembro, pra não ficar cinzento
O que é feito desses momentos?

Não é no fado só
Mas que saudade eu tenho

Oh, que saudade eu tenho
Do cheiro das manhãs de inverno
Pensei que fosse eterno

Oh, que saudade eu tenho
Daquelas noites de verão
Havia sempre solução, para nós
Havia

Oh, não sei se tu sabes que tudo muda
A saudade bate mais forte, mas também o tempo não ajuda
É a recordação, é a esperança do avesso. Foram tantas que algumas até me esqueço
A idade avançou, o tempo mudou, a verdade bate mais forte porque eu sei que quase tudo acabou
É a inocência da irreverência ausente da existência da aparência da mesma adolescência

E não há nada
Nada a fazer

Oh, que saudade eu tenho
Do cheiro das manhãs de inverno
Pensei que fosse eterno

Oh, que saudade eu tenho
Daquelas noites de verão
Havia sempre solução, para nós
Havia

Mas que saudade, saudade do tempo
Quero voltar atrás, que saudade, que saudade que eu tenho
Que saudade, que eu tenho


quarta-feira, 24 de julho de 2019

Problema de expressão


Só pra dizer que te Amo,
Nem sempre encontro o melhor termo,
Nem sempre escolho o melhor modo.

Devia ser como no cinema,
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém.

O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.

Só pra dizer que te Amo
Não sei porquê este embaraço
Que mais parece que só te estimo.

E até nos momentos em que digo que não quero
E o que sinto por ti são coisas confusas
E até parece que estou a mentir,
As palavras custam a sair,
Não digo o que estou a sentir,
Digo o contrário do que estou a sentir.

O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.

E é tão difícil dizer amor,
É bem melhor dizê-lo a cantar.
Por isso esta noite, fiz esta canção,
Para resolver o meu problema de expressão,
Pra ficar mais perto, bem mais de perto.

Ficar mais perto, bem mais de perto.


terça-feira, 23 de julho de 2019

Vem de novo ...


E se eu
E se eu me esquecer de ti
Mas não dessa forma que o fiz
Isso fui só eu a ser só eu
Mas, se se enrugar a noção do meu melhor
Vem, de novo, deseducar-me de estar só
E se tu
E se te apagares de mim
Mas não como às vezes pedi
Isso fui eu só a ser eu só
Ai, se se enrugar a noção do meu melhor
Vem, de novo, curar-me o vício de estar só
E se o que eu pagar
P'lo que não dormi
For reencarnar
Nas memórias de um puto
Sem jeito nenhum
E se o que eu pagar
P'lo que já esqueci
For perder o pavor de perder-te
Por nem saber quem és
Pois, se se enrugar a noção do meu melhor
Venho, velho, desconhecer que nada sou
Mas se se enrugar a noção do meu melhor
Vem, de novo, deseducar-me de estar só








quarta-feira, 25 de abril de 2018

Os Amantes Sem Dinheiro


Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade, Os Amantes Sem Dinheiro

terça-feira, 25 de abril de 2017

25 de Abril



Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas


domingo, 5 de fevereiro de 2017

Bordejando


Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece. 



O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo. 



Trémulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida? 



Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


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Uns "Legos" e um poema do O'Neill ...


Está tudo conformado
ao triste proprietário.
Mecânicas ovelhas,
na erva de plástico,
têm pastor de pilhas
e cão pré-fabricado.
Flores marginam esse
às peças-soltas do prado.
Eléctricas abelhas,
obreiras sem contrato,
daquele herbário extraem
um mel supermercado.
A malhada, no estábulo,
quase manga de alpaca
(é A VACA, sabias?),
dá leite engarrafado.
No céu (para colorir)
a nuvem (pontual),
aguarda a vez de ser
chovida no nabal,
enquanto o Sol dardeja
na eira proverbial.
Já tudo afeiçoado
ao bom do proprietário
(ervas, bichos, moral),
ele conta com os seus
e espera sempre em Deus.






"- Deste corda ao pardal?" de Alexandre O'Neill



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domingo, 1 de janeiro de 2017

2016 ... adeus!





Morre David Bowie. Morre Prince. Morre Leonard Cohen, morre George Michael. Mas Ágata canta Hallelujah e Maria Leal descobre entroncamentos sem fim.
Em janeiro, Maria de Belém diz que se for eleita Presidente levará Chefes de Estado a almoçar a lares de idosos. Marcelo ganha as eleições e acaba a brindar sozinho à mesa com os Reis de Espanha. Bloco de Esquerda não aplaude porque está demasiado ocupado a mudar cartão de cidadão para cartão da cidadã.
Benfica mantém a sua cavalgada triunfal no futebol nacional, reduzindo Jorge Jesus a “adrenalina negativa”. Tal como o Sporting, a requalificação “verde” na Segunda Circular cai ao minuto oitchenta e oitcho. Mas as restantes obras em Lisboa são de parar o trânsito.
Morre Ettore Scola. Morre Zaha Hadid. Morre Nuno Teotónio Pereira. Morre Fidel. Morre Umberto Eco. Morre Michael Cimino. Morre Gene Wilder, Carrie Fisher e sua mãe Debbie Reynolds. Morre Cruyff e João Havelange.
Jerónimo Sousa descreve Marisa Matias como “engraçadinha”, Pedro Arroja compara o Bloco de Esquerda a “mulheres esganiçadas”, o movimento Bela Recatada e do Lar criado no Brasil torna-se viral, e o PCP aproveita para se juntar à direita no chumbo aos votos de condenação de Angola no caso Luaty Beirão.
A Geringonça, conhecida como o “bebé com ADN de três pais”, revela-se um sucesso, e o país descobre um Presidente da República que faz presenças e distribui condecorações.
A paz social é alcançada apesar de Santos Silva comparar os sindicatos a uma “feira de gado” e João Soares querer dar umas bofetadas a colunistas do Público.
A TAP corta 4 voos para o Porto mas Rui Moreira fica com os Mirós. Aeroporto de Lisboa passa a chamar-se Humberto Delgado. E subitamente, passageiros argelinos começam a invadir a pista do aeroporto como se fosse a Black Friday ou o Pokemon Go.
Morre Almeida Santos. Morre José Lello. Morre Francisco Nicholson e Nicolau Breyner. Mas José Pedro Gomes sai do coma.
Taxistas param o país no protesto contra a Uber mas ao fim da noite estão todos a ver o Prós e o Contras e a mamar jolas. Portugal não vai ao Eurofestival da Canção mas a carta de condução ganha 12 pontos e Portugal ganha o Euro 2016 num jogo em que Ronaldo se estreia como treinador.
Jovem derruba estátua de D. Sebastião no Rossio, turista derruba estátua no museu de Arte Antiga, turista atira-se ao mar para apanhar um barco na Madeira e Mário Soares cai em coma profundo.
Messi falha um penalti a abandona a selecção argentina. Ronaldo falha imensos, não desiste, e acaba por ganhar a Champions, o Euro 2016, abrir hotéis e arremessar o microfone da CMTV para o lago. Se perdermos que s’a foda.
Heróis populares? O dono do restaurante de kebab no Cais Sodré, o casal que ofereceu mil litros de água na A1, a Telma Monteiro que trouxe bronze do Rio, o Dylan que não quis saber do Nobel, e o Pedro Dias que durante um mês só comeu nozes, castanhas e kiwis.
Vilões do ano? O “arquitecto” José António Saraiva, a carteirista Quina, os filhos do embaixador iraquiano em Portugal e a taróloga da SIC que aconselhou “paciência” a uma vítima de violência doméstica. Já dizia o Trump: Protect your pussy!
Atentados Je Suis em Nice, Bruxelas, Istambul, Berlim, para não falar do embaixador russo morto em Ancara, do ataque a uma discoteca gay na Florida e da tragédia do Chapecoense na Colômbia. Os humanistas de sofá pedem para olharmos mais para Alepo, mas estamos todos distraídos com os tweets de Trump.
Trends do ano? O Mannequin Challenge, o Panama Papers e as opiniões sobre o Burquini.
Humor debaixo de fogo. RAP afirma que já não faz sentido anedotas com “mariconços e marrecos”, Pedro Fernandes e Franco Bastos pedem desculpa a Pinto da Costa, Nuno Markl diz que nunca quis ofender os transmontanos, Henrique Raposo é persona non grata no Alentejo e José António Saraiva é odiado por todos. Não admira que Rui Sinel de Cordes tenha decidido emigrar para Inglaterra.
A Madeira ardeu, o festival Andanças queimou, os treinos dos Comandos mataram, a discussão entre apoio ao ensino privado e público ferveu. Assunção Cristas, criadora do soro da verdade, do radicalismo do amor e do vestido branco com ou sem kiwis, disse que devíamos “sacrificar escolas públicas”.
Saídas limpas (ou talvez não) de Cavaco, de Hillary Clinton, da nota de 500 euros, do Brexit, do Galaxy Note 7, da Dilma, do Elefante Branco, da Cornucópia e da Académica, que desceu de divisão.
Portugueses correm para a inauguração do MAAT, do túnel do Marão, do Galo de Barcelos gigante da Joana Vasconcelos, do perdão fiscal e de qualquer celebridade RIP que tenha morrido nos últimos dez minutos.
Temas fracturantes? A Embaixada em Paris que recusa receber Tony Carreira, o McDonald’s que inaugura no Chiado, os voos oferecidos pela GALP, o fim do casal Brangelina, e os despenteados da Websummit.
No início do ano Portugal cai seis lugares no ranking da felicidade mas depois Marcelo é eleito, a selecção vence o Euro 2016, a nossa gastronomia ganha nove estrelas Michelin e Guterres é eleito Secretário Geral da ONU. O ano acaba com Portugal na Champions da Felicidade, uma espécie de pós-verdade dos pobres.
2016 morre no final do ano vítima de doença prolongada ou talvez um entroncamento sem fim. Tchau querido!

Texto de “MC Somsen” (… retirado de Facebook)


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