terça-feira, 15 de setembro de 2015

Amo o vermelho


Amo o vermelho. Amo-te, ó hóstia do sol-posto!



Fascina-me o escarlate. Os meus tédios estanca:



E apezar d'isso, ó cruel hysteria do Gosto,



Certa flor da minh'alma é branca, branca, branca...


António Nobre, in 'Só'



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domingo, 13 de setembro de 2015

Quando saíres fecha a porta



Deste palácio abandonado mandei arrancar todas as portadas.
No seu lugar ficaram as janelas por onde entra o mundo.
O nó que sentes na garganta é o início de uma amigdalite vitalícia.
Há-de descer-te pelos pulmões até ao coração inflamado.
Aqui há correntes de ar impróprias às fragilidades humanas.
Restringimos a complacência a fraquezas de origem divina.




Neste palácio abandonado não há gaiolas fechadas.
Os pássaros fazem o ninho nas palmas das minhas mãos abertas
E as crias debicam-me as nozes dos dedos por onde escorreram os anéis.
Em tempos houve rubis. Mas as pedras são frias.
Se não tens cuidado congelam-te o olhar.
Troquei-os por duas ou três gotas de sangue nas veias.




Por este palácio abandonado passeia-se em fúria o vento norte.
Rouba a areia das praias para desenhar as dunas que me servem de cama
E pelas frinchas dos sonhos sopra acordes de orquestra que me embalam.
O silvo que te rodeia os ouvidos é a agonia do vento norte
há-de instalar-se no interior da tua memória e ensurdecer-te.
Aqui ouve-se uma música imprópria às fragilidades humanas.




Por isso, por favor, quando saíres fecha a porta.




Poema "Quando saíres fecha a porta" de "Cuca, a Pirata", em "Stars & Mythical Creatures"



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segunda-feira, 22 de junho de 2015

Praia


Minha praia ardorosa e solitária
aberta ao grande vento e ao largo mar
tu me viste querer-lhe com a doce
piedade das sombras do luar 


teus cabos se adiantam como braços
para abraçar as ninfas receosas
que fugindo oferecem sobre as vagas
suas nítidas formas amorosas 


braços paralisados por desejo
que o mundo e sua lei não permitiu
ou suspendeu amor que livre jogo
maior que posse em fugaz tempo viu 


e como vós me alongo e como tu
areia me ofereço a toda sorte
por sua liberdade ou por destino
que por só dela seja belo e forte. 


Agostinho da Silva, in 'Poemas'


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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Mar Português

III.

PADRÃO


O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.


E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

Fernando Pessoa, Mensagem



domingo, 7 de junho de 2015

Verdes são os Campos



Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Luís Vaz de Camões 


terça-feira, 19 de maio de 2015

No País das Maravilhas

(pequeno intervalo nos caretos, caretas e outras caras bonitas... com convidado especial)




"(...)
The chief difficulty Alice found at first was in managing her flamingo: she succeeded in getting its body tucked away, comfortably enough, under her arm, with its legs hanging down, but generally, just as she had got its neck nicely straightened out, and was going to give the hedgehog a blow with its head, it would twist itself round and look up in her face, with such a puzzled expression that she could not help bursting out laughing; and when she had got its head down, and was going to begin again, it was very provoking to find that the hedgehog had unrolled itself, and was in the act of crawling away (...) and, as the doubled-up soldiers were always getting up and walking off to other parts of the ground, Alice soon came to the conclusion that it was a very difficult game indeed."

Lewis Carroll, Alice's Adventures in Wonderland


segunda-feira, 18 de maio de 2015

Máscaras, caretos, caretas e gente bonita 12




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Máscaras, caretos, caretas e gente bonita 11




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domingo, 17 de maio de 2015

Máscaras, caretos, caretas e gente bonita 10




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Máscaras, caretos, caretas e gente bonita 9




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sábado, 16 de maio de 2015

Máscaras, caretos, caretas e gente bonita 8




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Máscaras, caretos, caretas e gente bonita 7




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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Máscaras, caretos, caretas e gente bonita 6



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Máscaras, caretos, caretas e gente bonita 5



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quinta-feira, 14 de maio de 2015

Máscaras, caretos, caretas e gente bonita 4




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Máscaras, caretos, caretas e gente bonita 3




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quarta-feira, 13 de maio de 2015

Máscaras, caretos, caretas e gente bonita 2




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terça-feira, 12 de maio de 2015

Máscaras, caretos, caretas e gente bonita 1




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quinta-feira, 7 de maio de 2015

Et in Arcadia Ego




"Oxford, in those days, was still a city of aquatint. In her spacious and quiet streets men walked and spoke as they had done in Newman's day; her autumnal mists, her grey springtime and the rare glory of her summer days - such as that day - when the chestnut was in flower and the bells rang out high and clear over her gables and cupolas, exhaled the soft airs of centuries of youth. It was this cloistral hush wich gave our laughter ist resonance, and carried it still, joyously, over the intervening clamor."


"The bells of St. Mary's were chiming nine; we escaped collision with a clergyman, black-straw-hatted, white-bearded, pedaling quietly down the wrong side of the High Street, crossed Carfax, passed the station, and were soon in open country on the Botley Road; open country was easily reached in those days."

Evelyn Waugh, Brideshead Revisited


quarta-feira, 6 de maio de 2015

... eu sobrevivi ...


Era primavera, eu liguei pra ela, pra falar das belas flores que eu comprei
sem nenhum apreço, perdi o endereço, já nem sei o preço que eu ali paguei
mesmo assim perdido, um pouco aturdido, ali estarrecido a ela entreguei
e saí sozinho, pelo meu caminho, lembrando o carinho que eu não ganhei.


era um outono, eu no abandono, não me via dono da minha alegria
fiz um julgamento, no meu pensamento, que outra vez sedento eu não mais seria
eu saí pra fora, o coração agora, não contava a hora, da noite e do dia
como a moinha, espalhada sozinha, e em cada folhinha que no chão caía.


chegou o verão, o meu coração, teve a sensação de querer voar
naquela aventura, deixar toda agrura, e de alma pura o mundo ganhar
fiz minha bagagem, comprei uma passagem, no mundo selvagem eu fui me lançar
mas deu tudo errado, eu fiquei de lado, e agora parado sem saber voltar.


enfim, este inverno, que parece eterno, não me dá um terno para me vestir
tô na beira rio, com fome e com frio, meu fone sumiu e eu não mais vi
quero ir embora, me levar pra fora, mas não vejo agora razão de existir
não aos olhos teus, sim as mãos de Deus, nos sentidos meus... eu sobrevivi.


Poema de Ezhequiel Águia Queiróz


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sábado, 25 de abril de 2015

A Rapariga do País de Abril


Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.

Por ti cheguei ao longe aqui tão perto
e vi um chão puro: algarves de ternura.
Quando vieste tudo ficou certo
e achei achando-te o País de Abril.

Manuel Alegre, in "30 Anos de Poesia"




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SEMPRE!




Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'O Nome das Coisas'


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sexta-feira, 24 de abril de 2015

e trago o mês de Abril a voar dentro do peito


Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.

Poema de José Fanha


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segunda-feira, 20 de abril de 2015

Esta gente



Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco


Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis 


Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre 


Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome 


E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada 


Meu canto se renova 
E recomeço a busca 
De um país liberto 
De uma vida limpa 
E de um tempo justo



Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"


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