domingo, 6 de novembro de 2016

Esta gente


Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco 


Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis


Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre 


Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome 


E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada 


Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo 



 Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"



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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

e encerrar-me todo num poema, não em língua plana mas em língua plena



queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima

Herberto Helder, A Morte sem Mestre

sábado, 30 de julho de 2016

Iniciação ao surrealismo



Os anões saltam à corda
Na fossa das Marianas
Um tem nome de Taborda
Outro gosta de bananas

Ervilhas cozem depressa
Por entre vales e montes
Sopram comboios fantasmas
Pousados em cataplasmas
Tropeçam os mastodontes
Que inquietação essa...

Era a vaca que já não ria
A sardinha no lupanar
A roca parou de fiar
O papel não tem esquadria

BPinto, Inédito


terça-feira, 26 de julho de 2016

E a gente dança ...

E a gente canta
E a gente dança
E a gente não se cansa
De ser criança
Da gente brincar
Da nossa velha infância


Você é assim
Um sonho pra mim
E quando eu não te vejo

Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito

Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo é o meu amor

E a gente canta
E a gente dança
E a gente não se cansa
De ser criança
Da gente brincar
Da nossa velha infância

Seus olhos, meu clarão
Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho
Eu sigo e nunca me sinto só

Você é assim
Um sonho pra mim
Quero te encher de beijos

Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito

Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo é o meu amor

E a gente canta
A gente dança
A gente não se cansa

De ser criança
A gente brinca
A nossa velha infância

Seus olhos meu clarão
Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho
Eu sigo e nunca me sinto só

Você é assim
Um sonho pra mim
Você é assim

Você é assim
Um sonho pra mim
Você é assim



(Arnaldo Antunes / Carlinhos Brown / Dari Moraes / Marisa Monte)




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domingo, 24 de julho de 2016

... e semear um grão de poesia no teu seio ...


Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.

Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã. 


Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!

Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem. 


Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!

E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois. 


Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!

A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos. 


Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida!



“A terra” de Miguel Torga  


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sábado, 23 de julho de 2016

De volta ao luto ...





… e para acompanhar …

He left no time to regret
Kept his lips wet
With his same old safe bet
Me and my head high
And my tears dry
Get on without my guy
You went back to what you knew
So far removed from all that we went through
And I tread a troubled track
My odds are stacked
I'll go back to black

We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
I go back to us

I love you much
It's not enough
You love blow, and I love puff
And life is like a pipe
And I'm a tiny penny rolling up the walls inside

We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to

Black
Black
Black
Black
Black
Black
Black
I go back to
I go back to

We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to black


Na versão cantada, o que o rapaz que “não teve tempo para se arrepender” manteve molhado não foram bem os lábios. Tudo o mais é uma delícia de canção, muito mais nesta versão acústica que na que ficou registada (que, querendo, podem escutar AQUI, embora censurada na parte húmida do rapaz!).

Autores: Amy Winehouse e Mark Ronson


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sexta-feira, 22 de julho de 2016

Geometria que respira errante e ritmada ...


Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.


Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas. 


Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.



Poema “O Jardim” de António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

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quarta-feira, 20 de julho de 2016

Ocasos


(Neste blogue gostamos da Cuca)




Lembrei-me, hoje, do teu pôr-do-sol. 
Ficava numa longa reta asfaltada que terminava no mar.
Os raios cansados salpicavam de ouro partículas de pó na berma da estrada que, a cada ocaso, era uma pista de descolagem para a eternidade. 

Todas as pessoas tinham o seu pôr-do-sol. Há alguma nostalgia no facto de saber que não voltarei a cruzar-me com tão bizarro sentido de propriedade. 

O meu sol punha-se a dois ou três quilómetros do teu spot de ocasos. 
Afogava-se diretamente no azul do mar, parecendo mergulhar a partir da minha varanda. 
Ainda é assim que se põe o meu sol. As varandas sobre o mar são iguais em qualquer parte do mundo. 
Ocorreu-me hoje que, apesar do tanto que partilhámos, raras foram as vezes em que conseguimos viver o mesmo ocaso.


Roubado, em plágio mais-que-perfeito, à Cuca, a Pirata, aqui.


No princípio era o verbo ...


No princípio era o verbo
uma vaga voz sem dono
vagando pela via láctea.

Depois veio o sujeito
e junto com ele todos
os erros de concordância.



“Génese II”, de Gregório Duvivier, in “Poemas de amor e big bang”


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terça-feira, 19 de julho de 2016

Pastores de gaivotas


Éramos para ser muito felizes numa daquelas casas de madeira pintadas de branco, com um terraço voltado para o mar, a terminar nos limites da areia da praia.

Dentro de casa ia ser tudo branco à exceção das capas dos livros que me lerias nas manhãs em que nos acordassem os uivos do vento norte. Então ficaria deitada com a cabeça no teu colo e os sentidos alugados a um poema de Wallace ou, havendo sol, a um verso de um qualquer árabe do século XII que por mero acaso tivéssemos desenterrado na véspera. 


Éramos para almoçar em silêncio, na varanda, lado a lado e com os olhos presos no mar, um peixe pescado e assado por ti. Estaria vento mas não nos perturbaríamos com os objetos a fugirem da mesa e a dançarem numa espiral em nosso redor. Nem uma onda morreria antes que a guardássemos na retina.

Éramos para dançar ao por-do-sol na praia vazia perante uma plateia de gaivotas alinhadas em esquadria e à espera do crepúsculo. 


À noite, centenas de velas iluminariam a banheira vintage, branca, onde me lavarias os cabelos ao som do jazz da Billie Holiday.

E haveria, por fim, de adormecer como acordei, com a tua voz, por entre os uivos do vento norte, a alimentar-me a alma com a metafísica esdrúxula de uma criatura ainda mais perturbada do que nós dois. 

























Éramos para ser pastores de gaivotas.

Mas depois pensámos melhor e achámos que era mais fácil continuarmos a ser o que não somos.



Texto de "Cuca, a Pirata", em “Stars & Mythical Creatures” (AQUI)


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segunda-feira, 18 de julho de 2016

A maldição dos meninos que choram


Numa recente visita a um museu de velharias (Casa-Museu do fantástico Custódio Bartolomeu), cruzei-me com estas “obras de arte” e relembrei lendas antigas que associavam estas pinturas a histórias que em tempos idos me causaram alguns pesadelos.
Cópias baratas destes quadros assustadores e deprimentes decoraram as casas de alguns de nós, sendo certo que os compradores desconheciam as histórias arrepiantes e misteriosas que constam ter estado na sua origem mas que, ainda assim, permitiram que convivêssemos com estas tristes criaturas.

Certamente já ouviram falar dessa abordagem lendária de tanta lágrima a escorrer pelo rosto das crianças. Se ainda não, hoje é o dia!


Reza a história que o pintor italiano Giovani Bragolin (também conhecido por Franchot Seville, Bruno Amadio, Bragolin e J. Bragolin) como não conseguia vender os seus quadros, fez um pacto com o diabo, aceitando pintar 27 crianças em grande sofrimento. A lenda acrescenta que todas as crianças retratadas estavam mortas, o que justificava as pupilas dilatadas.
As imagens impressionaram o público que comprou todos os quadros, os quais foram reproduzidos e espalhados pelo mundo, inundando lares e oficinas, lado a lado com calendários Pirelli bem mais alegres e apelativos.

Quando um dos famosos quadros do Bragolin foi encontrado intacto numa casa incendiada em Inglaterra, a lenda prosseguiu com o mito de que o original destas obras resiste ao fogo. Daí até se concluir que aquelas pinturas traziam desgraça, tristeza e problemas para os moradores das casas onde eles se encontravam, foi um passinho.


Giovani Bragolin, depois de rico, ficou repeso do pacto que celebrou com o demo e visitou todos os países para onde os quadros foram vendidos, contando a sua história e pedindo que as pessoas queimassem os seus meninos chorões (mas como, se eles não ardem!) para evitar maldições nas suas vidas.

Será que devo eliminar esta publicação? 


Entretanto, não deixem de estudar mais sobre este importante assunto, podendo fazê-lo, por exemplo, AQUI, AQUI ou por essa internet fora … boa pesquisa!

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A renascer ...


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quarta-feira, 22 de junho de 2016

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Para ser feliz mesmo quando ninguém estiver olhando


Matarás. Sim, matarás. É óbvio que não sou deus pra ficar mandando em toda a gente — mamãe, contudo, julga-me um santo — mesmo assim, afirmo que matarás a inveja, aquele desejo tolo e inviável de seres quem tu não és. Roubarás corações sob pena de ganhares mil anos de perdão. E mais: cometerás perjúrio, de cara lavada, ao declarar que quem começou a amar primeiro foi o outro, quando, na verdade, foste tu o arpoado desde o princípio pelos cupidos, sem o mister das anestesias.

Tomarás de assalto todo e qualquer sorriso com o qual te deparares no caminho. Esquece as pedras. Delas ocupar-se-ão os poetas. Concentra-te só na poeira da estrada e aproveita bem a viagem. Assim que tiveres chance, furta cores. Tu bem sabes que o sol nasce para todos. E por falar em escuridão e luz, farás, sem remorso, o aborto provocado do ódio ainda em fase germinativa. Serás devidamente acusado de receptação e tráfico internacional de afeto. Sonegarás toda demonstração de ciúme e outros sentimentos menores que porventura permearem o teu peito.

Que ninguém julgue isso uma espécie de assédio, pois farás a seguinte chantagem: diz ao ser amado que, em caso de saudade extrema, aplicarás nele um abraço tão apertado que muitos comentarão não ser um abraço desse mundo. Será uma demonstração de carinho tão generosa e honesta que, certamente, demandará unguento e um pé-de-cabra para separar os corpos. Já imaginaste um abraço assim? Haverá quem te acuse de amar o próximo. Não te deixes abater.

Revidarás os formais bons-dias com juros e correção monetária, quem sabe, distribuindo apertos-de-mão a estranhos. Vais sequestrar o mau-humor vigente no trânsito da cidade e engolirás a chave do cativeiro. Mesmo que sujeito a críticas, cativarás os teus filhos com mentiras do tipo: — Sim, meus queridos, a vida será para sempre boa. Torturarás com altas voltagens de fantasia quem já não sonha tem várias primaveras.

Aliás, liderarás um bando de sonhadores insolentes e todos os canais de TV anunciarão durante o horário nobre que tu e teus pobres lunáticos formam a mais adorável quadrilha organizada de todos os tempos. Tu vais matar as horas com requintes de humanidade, ao passo que apreciarás o vento no rosto e a paisagem da estrada. Se fores fugir, leva-me contigo. Por onde quer que tu andes, traficarás todo o arsenal de belas canções que contiver no teu repertório. Demora-te o quanto puderes nas composições de Lennon, McCartney e George Harrison. Pode parecer ilícito, mas, tua droga será tua música.

Serás acusado de clonagem de cartões de natal. Pouco importa. Hoje em dia, ninguém dá a mínima aos correios. Vais agredir a palermice dos coquetéis chiques ao declamares os poemas simplórios de Mário Quintana. Socarás os cenhos das madames siliconadas com a poesia infame de Charles Bukowski. Como se fosses o velho Hank disfarçado a vestir uma batina, ameaçarás os convidados com os monólogos de Padre Antônio Vieira. Podes ter certeza: não ficará canapé sobre canapé. Literatura não enche barriga, meu bem.

Amealha. Isso mesmo. Amealha risos. Tu vais, sim, cobiçar e plagiar toda espécie de bom humor alheio. Contamina-te deles mais que a um vírus ou que a tristeza das mãos acenando. Nos teus raros momentos de desespero, difamarás o Criador e, mesmo assim, de bom grado, ele irá te perdoar, pois sabe que o crime de ter criado o mundo ainda compensa.

Tu vais causar um alvoroço danado quando vieres a público assumir, confessar que abusaste da verdade e que estupraste a mentira. Vais poluir a cidade com serenata e tuas roupas espalhafatosas encharcadas de cor. Por prazo indeterminado, ficará permitido a ti o porte legal das armas de afago. Usa a tua imaginação, baby. E voa comigo.



Fotografia dos meninos artistas que ilustra o texto no referido site - autor desconhecido (aceito ajuda quanto à identificação do autor.)


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domingo, 29 de novembro de 2015

Sonho Azul


Levei-a no meu sonho azul
Azul, Azul
Da cor do céu
Levei-a comigo
Sonhou um sonho
Da cor do meu
Deitados no leito da lua
Na frescura, que tremor...


Levei-a no meu sonho azul
Azul, azul
Da cor do mar
Levei-a comigo
Sonhou um sonho
De apaixonar
Deitados na noite das ilhas
Na frescura, que tremor...


Trocava a vida toda
Pela vida deste amor
Meu Sonho Azul

 


 





 

Trocava a vida toda
Pela vida deste amor
Meu Sonho Azul



Poema de Pedro Ayres Magalhães (para uma música do próprio cantada pela Né Ladeiras).

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terça-feira, 17 de novembro de 2015

Analogia Aquática



Aprendi a minha arte de jogar
com as palavras lançando-as à água, como
pedras, para ver como saltam, ou se afundam, ao acaso
da mão que as lança. E penso no que aconteceria se,
em vez das pedras polidas da ria, fossem versos
o que eu lançasse. As suas sílabas, como pétalas, iriam
dispersar-se numa espuma de ondas, e colar-se-iam
aos pés dos apanhadores de amêijoa, fazendo-os
enterrarem-se num lodo de vogais. Se eu tivesse o seu domínio
das marés, deixaria que os versos subissem até formarem
poemas, e faria com eles a linha branca do litoral. Mas
os pescadores chegam antes de mim, e empurram os barcos
até passarem a rebentação e lançarem as redes, apanhando
vogais, sílabas e palavras, como peixes e algas,
para as venderem ao desbarato
na lota do poema.

Nuno Júdice, A Convergência dos Ventos