segunda-feira, 26 de setembro de 2016
e encerrar-me todo num poema, não em língua plana mas em língua plena
queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima
Herberto Helder, A Morte sem Mestre
sábado, 30 de julho de 2016
Iniciação ao surrealismo
Os anões saltam à corda
Na fossa das Marianas
Um tem nome de Taborda
Outro gosta de bananas
Ervilhas cozem depressa
Por entre vales e montes
Sopram comboios fantasmas
Pousados em cataplasmas
Tropeçam os mastodontes
Que inquietação essa...
Era a vaca que já não ria
A sardinha no lupanar
A roca parou de fiar
O papel não tem esquadria
BPinto, Inédito
terça-feira, 26 de julho de 2016
E a gente dança ...
E a gente canta
E a gente dança
E a gente não se cansa
De ser criança
Da gente brincar
Da nossa velha infância
Você é assim
Um sonho pra mim
E quando eu não te vejo
Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito
Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo é o meu amor
E a gente canta
E a gente dança
E a gente não se cansa
De ser criança
Da gente brincar
Da nossa velha infância
Seus olhos, meu clarão
Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho
Eu sigo e nunca me sinto só
Você é assim
Um sonho pra mim
Quero te encher de beijos
Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito
Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo é o meu amor
E a gente canta
A gente dança
A gente não se cansa
De ser criança
A gente brinca
A nossa velha infância
Seus olhos meu clarão
Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho
Eu sigo e nunca me sinto só
Você é assim
Um sonho pra mim
Você é assim
Você é assim
Um sonho pra mim
Você é assim
(Arnaldo Antunes / Carlinhos Brown / Dari Moraes / Marisa
Monte)
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domingo, 24 de julho de 2016
... e semear um grão de poesia no teu seio ...
Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.
Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.
De uma cigarra vã.
Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!
Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.
Na melodia que o poema tem.
Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!
E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.
Fruto maduro de nós dois.
Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!
A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.
No pudor dos atalhos.
Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida!
“A terra” de Miguel Torga
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sábado, 23 de julho de 2016
De volta ao luto ...
… e para acompanhar …
He left no time to regret
Kept his lips wet
With his same old safe bet
Me and my head high
And my tears dry
Get on without my guy
You went back to what you knew
So far removed from all that we went through
And I tread a troubled track
My odds are stacked
I'll go back to black
We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
I go back to us
I love you much
It's not enough
You love blow, and I love puff
And life is like a pipe
And I'm a tiny penny rolling up the walls inside
We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
Black
Black
Black
Black
Black
Black
Black
I go back to
I go back to
We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to black
Na versão cantada, o que o rapaz que “não teve tempo para se
arrepender” manteve molhado não foram bem os lábios. Tudo o mais é uma delícia
de canção, muito mais nesta versão acústica que na que ficou registada (que, querendo, podem escutar AQUI, embora censurada na parte húmida do rapaz!).
Autores: Amy Winehouse e Mark Ronson
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sexta-feira, 22 de julho de 2016
Geometria que respira errante e ritmada ...
Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.
Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.
composta pelo vento em sinuosas palmas.
Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.
Poema “O Jardim” de António Ramos Rosa, in "Volante
Verde"
quarta-feira, 20 de julho de 2016
Ocasos
(Neste blogue gostamos da Cuca)
Lembrei-me, hoje, do teu pôr-do-sol.
Ficava numa longa reta asfaltada que terminava no mar.
Os raios cansados salpicavam de ouro partículas de pó na berma da estrada que, a cada ocaso, era uma pista de descolagem para a eternidade.
Os raios cansados salpicavam de ouro partículas de pó na berma da estrada que, a cada ocaso, era uma pista de descolagem para a eternidade.
Todas as pessoas tinham o seu pôr-do-sol. Há alguma nostalgia no facto de saber que não voltarei a cruzar-me com tão bizarro sentido de propriedade.
O meu sol punha-se a dois ou três quilómetros do teu spot de ocasos.
Afogava-se diretamente no azul do mar, parecendo mergulhar a partir da minha varanda.
Ainda é assim que se põe o meu sol. As varandas sobre o mar são iguais em qualquer parte do mundo.
Ocorreu-me hoje que, apesar do tanto que partilhámos, raras foram as vezes em que conseguimos viver o mesmo ocaso.
Roubado, em plágio mais-que-perfeito, à Cuca, a Pirata, aqui.
No princípio era o verbo ...
No princípio era o verbo
uma vaga voz sem dono
vagando pela via láctea.
Depois veio o sujeito
e junto com ele todos
os erros de concordância.
os erros de concordância.
“Génese II”, de Gregório Duvivier, in “Poemas de amor e big
bang”
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terça-feira, 19 de julho de 2016
Pastores de gaivotas
Éramos para ser muito felizes numa daquelas casas de madeira
pintadas de branco, com um terraço voltado para o mar, a terminar nos limites
da areia da praia.
Dentro de casa ia ser tudo branco à exceção das capas dos
livros que me lerias nas manhãs em que nos acordassem os uivos do vento norte.
Então ficaria deitada com a cabeça no teu colo e os sentidos alugados a um
poema de Wallace ou, havendo sol, a um verso de um qualquer árabe do século XII
que por mero acaso tivéssemos desenterrado na véspera.
Éramos para almoçar em silêncio, na varanda, lado a lado e
com os olhos presos no mar, um peixe pescado e assado por ti. Estaria vento mas
não nos perturbaríamos com os objetos a fugirem da mesa e a dançarem numa
espiral em nosso redor. Nem uma onda morreria antes que a guardássemos na
retina.
Éramos para dançar ao por-do-sol na praia vazia perante uma
plateia de gaivotas alinhadas em esquadria e à espera do crepúsculo.
À noite, centenas de velas iluminariam a banheira vintage,
branca, onde me lavarias os cabelos ao som do jazz da Billie Holiday.
E haveria, por fim, de adormecer como acordei, com a tua
voz, por entre os uivos do vento norte, a alimentar-me a alma com a metafísica
esdrúxula de uma criatura ainda mais perturbada do que nós dois.
Éramos para ser pastores de gaivotas.
Mas depois pensámos melhor e achámos que era mais fácil
continuarmos a ser o que não somos.
Texto de "Cuca, a Pirata", em “Stars & Mythical Creatures”
(AQUI)
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segunda-feira, 18 de julho de 2016
A maldição dos meninos que choram
Numa recente visita a um museu de velharias (Casa-Museu do
fantástico Custódio Bartolomeu), cruzei-me com estas “obras de arte” e
relembrei lendas antigas que associavam estas pinturas a histórias que em
tempos idos me causaram alguns pesadelos.
Cópias baratas destes quadros assustadores e deprimentes decoraram
as casas de alguns de nós, sendo certo que os compradores desconheciam as
histórias arrepiantes e misteriosas que constam ter estado na sua origem mas
que, ainda assim, permitiram que convivêssemos com estas tristes criaturas.
Certamente já ouviram falar dessa abordagem lendária de
tanta lágrima a escorrer pelo rosto das crianças. Se ainda não, hoje é o dia!
Reza a história que o pintor italiano Giovani Bragolin
(também conhecido por Franchot Seville, Bruno Amadio, Bragolin e J. Bragolin) como
não conseguia vender os seus quadros, fez um pacto com o diabo, aceitando pintar
27 crianças em grande sofrimento. A lenda acrescenta que todas as crianças
retratadas estavam mortas, o que justificava as pupilas dilatadas.
As imagens impressionaram o público que comprou todos os quadros,
os quais foram reproduzidos e espalhados pelo mundo, inundando lares e oficinas,
lado a lado com calendários Pirelli bem mais alegres e apelativos.
Quando um dos famosos quadros do Bragolin foi encontrado
intacto numa casa incendiada em Inglaterra, a lenda prosseguiu com o mito de que
o original destas obras resiste ao fogo. Daí até se concluir que aquelas
pinturas traziam desgraça, tristeza e problemas para os moradores das casas
onde eles se encontravam, foi um passinho.
Giovani Bragolin, depois de rico, ficou repeso do pacto que
celebrou com o demo e visitou todos os países para onde os quadros foram
vendidos, contando a sua história e pedindo que as pessoas queimassem os seus
meninos chorões (mas como, se eles não ardem!) para evitar maldições nas suas
vidas.
Será que devo eliminar esta publicação?
Entretanto, não deixem de estudar mais sobre este importante
assunto, podendo fazê-lo, por exemplo, AQUI, AQUI ou por essa internet fora … boa pesquisa!
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quarta-feira, 22 de junho de 2016
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
Para ser feliz mesmo quando ninguém estiver olhando
Matarás. Sim, matarás. É óbvio que não sou deus pra ficar
mandando em toda a gente — mamãe, contudo, julga-me um santo — mesmo assim,
afirmo que matarás a inveja, aquele desejo tolo e inviável de seres quem tu não
és. Roubarás corações sob pena de ganhares mil anos de perdão. E mais:
cometerás perjúrio, de cara lavada, ao declarar que quem começou a amar primeiro
foi o outro, quando, na verdade, foste tu o arpoado desde o princípio pelos
cupidos, sem o mister das anestesias.
Tomarás de assalto todo e qualquer sorriso com o qual te
deparares no caminho. Esquece as pedras. Delas ocupar-se-ão os poetas. Concentra-te
só na poeira da estrada e aproveita bem a viagem. Assim que tiveres chance,
furta cores. Tu bem sabes que o sol nasce para todos. E por falar em escuridão
e luz, farás, sem remorso, o aborto provocado do ódio ainda em fase
germinativa. Serás devidamente acusado de receptação e tráfico internacional de
afeto. Sonegarás toda demonstração de ciúme e outros sentimentos menores que
porventura permearem o teu peito.
Que ninguém julgue isso uma espécie de assédio, pois farás a
seguinte chantagem: diz ao ser amado que, em caso de saudade extrema, aplicarás
nele um abraço tão apertado que muitos comentarão não ser um abraço desse
mundo. Será uma demonstração de carinho tão generosa e honesta que, certamente,
demandará unguento e um pé-de-cabra para separar os corpos. Já imaginaste um
abraço assim? Haverá quem te acuse de amar o próximo. Não te deixes abater.
Revidarás os formais bons-dias com juros e correção
monetária, quem sabe, distribuindo apertos-de-mão a estranhos. Vais sequestrar
o mau-humor vigente no trânsito da cidade e engolirás a chave do cativeiro.
Mesmo que sujeito a críticas, cativarás os teus filhos com mentiras do tipo: —
Sim, meus queridos, a vida será para sempre boa. Torturarás com altas voltagens
de fantasia quem já não sonha tem várias primaveras.
Aliás, liderarás um bando de sonhadores insolentes e todos
os canais de TV anunciarão durante o horário nobre que tu e teus pobres
lunáticos formam a mais adorável quadrilha organizada de todos os tempos. Tu
vais matar as horas com requintes de humanidade, ao passo que apreciarás o
vento no rosto e a paisagem da estrada. Se fores fugir, leva-me contigo. Por
onde quer que tu andes, traficarás todo o arsenal de belas canções que contiver
no teu repertório. Demora-te o quanto puderes nas composições de Lennon,
McCartney e George Harrison. Pode parecer ilícito, mas, tua droga será tua
música.
Serás acusado de clonagem de cartões de natal. Pouco
importa. Hoje em dia, ninguém dá a mínima aos correios. Vais agredir a
palermice dos coquetéis chiques ao declamares os poemas simplórios de Mário
Quintana. Socarás os cenhos das madames siliconadas com a poesia infame de
Charles Bukowski. Como se fosses o velho Hank disfarçado a vestir uma batina,
ameaçarás os convidados com os monólogos de Padre Antônio Vieira. Podes ter
certeza: não ficará canapé sobre canapé. Literatura não enche barriga, meu bem.
Amealha. Isso mesmo. Amealha risos. Tu vais, sim, cobiçar e
plagiar toda espécie de bom humor alheio. Contamina-te deles mais que a um
vírus ou que a tristeza das mãos acenando. Nos teus raros momentos de
desespero, difamarás o Criador e, mesmo assim, de bom grado, ele irá te
perdoar, pois sabe que o crime de ter criado o mundo ainda compensa.
Tu vais causar um alvoroço danado quando vieres a público
assumir, confessar que abusaste da verdade e que estupraste a mentira. Vais
poluir a cidade com serenata e tuas roupas espalhafatosas encharcadas de cor.
Por prazo indeterminado, ficará permitido a ti o porte legal das armas de
afago. Usa a tua imaginação, baby. E voa comigo.
Texto de Eberth Vêncio (disponível em http://www.revistabula.com/5737-para-ser-feliz-mesmo-quando-ninguem-estiver-olhando)
Fotografia dos meninos artistas que ilustra o texto no referido site - autor desconhecido (aceito ajuda quanto à identificação do autor.)
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domingo, 29 de novembro de 2015
Sonho Azul
Levei-a no meu sonho azul
Azul, Azul
Da cor do céu
Levei-a comigo
Sonhou um sonho
Da cor do meu
Deitados no leito da lua
Na frescura, que tremor...
Levei-a no meu sonho azul
Azul, azul
Da cor do mar
Levei-a comigo
Sonhou um sonho
De apaixonar
Deitados na noite das ilhas
Na frescura, que tremor...
Trocava a vida toda
Pela vida deste amor
Meu Sonho Azul
Trocava a vida toda
Pela vida deste amor
Meu Sonho Azul
Poema de Pedro Ayres Magalhães (para uma música do próprio
cantada pela Né Ladeiras).
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terça-feira, 17 de novembro de 2015
Analogia Aquática
Aprendi a minha arte de jogar
com as palavras lançando-as à água, como
pedras, para ver como saltam, ou se afundam, ao acaso
da mão que as lança. E penso no que aconteceria se,
em vez das pedras polidas da ria, fossem versos
o que eu lançasse. As suas sílabas, como pétalas, iriam
dispersar-se numa espuma de ondas, e colar-se-iam
aos pés dos apanhadores de amêijoa, fazendo-os
enterrarem-se num lodo de vogais. Se eu tivesse o seu domínio
das marés, deixaria que os versos subissem até formarem
poemas, e faria com eles a linha branca do litoral. Mas
os pescadores chegam antes de mim, e empurram os barcos
até passarem a rebentação e lançarem as redes, apanhando
vogais, sílabas e palavras, como peixes e algas,
para as venderem ao desbarato
na lota do poema.
Nuno Júdice, A Convergência dos Ventos
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
Na Floresta
[Stopping by the Woods on a Snowy Evening]
Whose woods these are I think I know.
His house is in the village, though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.
My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and frozen lake
The darkest evening of the year.
He gives his harness bells a shake
To ask if there is some mistake
The only other sound's the sweep
Of easy wind and downy flake.
The woods are lovely, dark, and deep,
But I have promises to keep,
And miles to walk before I sleep,
And miles to walk before I sleep.
Robert Frost, The Collected Poems
domingo, 8 de novembro de 2015
Os amigos do Quasimodo
Gárgula.
Por dentro a chuva que a incha, por fora a pedra misteriosa
que a mantém suspensa.
E a boca demoníaca do prodígio despeja-se
no caos.
no caos.
Esse animal erguido ao trono de uma estrela,
que se debruça para onde
escureço. Pelos flancos construo
a criatura. Onde corre o arrepio, das espáduas
para o fundo, com força atenta. Construo
aquela massa de tetas
e unhas, pela espinha, rosas abertas das guelras,
umbigo,
mandíbulas. Até ao centro da sua
árdua talha de estrela.
árdua talha de estrela.
Seu buraco de água na minha boca.
E construindo falo.
Sou lírico, medonho.
Sou lírico, medonho.
Consagro-a no banho baptismal de um poema.
Inauguro.
Fora e dentro inauguro o nome de que morro.
Fora e dentro inauguro o nome de que morro.
Herberto
Helder - Le poème continu
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