quarta-feira, 22 de junho de 2016
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
Para ser feliz mesmo quando ninguém estiver olhando
Matarás. Sim, matarás. É óbvio que não sou deus pra ficar
mandando em toda a gente — mamãe, contudo, julga-me um santo — mesmo assim,
afirmo que matarás a inveja, aquele desejo tolo e inviável de seres quem tu não
és. Roubarás corações sob pena de ganhares mil anos de perdão. E mais:
cometerás perjúrio, de cara lavada, ao declarar que quem começou a amar primeiro
foi o outro, quando, na verdade, foste tu o arpoado desde o princípio pelos
cupidos, sem o mister das anestesias.
Tomarás de assalto todo e qualquer sorriso com o qual te
deparares no caminho. Esquece as pedras. Delas ocupar-se-ão os poetas. Concentra-te
só na poeira da estrada e aproveita bem a viagem. Assim que tiveres chance,
furta cores. Tu bem sabes que o sol nasce para todos. E por falar em escuridão
e luz, farás, sem remorso, o aborto provocado do ódio ainda em fase
germinativa. Serás devidamente acusado de receptação e tráfico internacional de
afeto. Sonegarás toda demonstração de ciúme e outros sentimentos menores que
porventura permearem o teu peito.
Que ninguém julgue isso uma espécie de assédio, pois farás a
seguinte chantagem: diz ao ser amado que, em caso de saudade extrema, aplicarás
nele um abraço tão apertado que muitos comentarão não ser um abraço desse
mundo. Será uma demonstração de carinho tão generosa e honesta que, certamente,
demandará unguento e um pé-de-cabra para separar os corpos. Já imaginaste um
abraço assim? Haverá quem te acuse de amar o próximo. Não te deixes abater.
Revidarás os formais bons-dias com juros e correção
monetária, quem sabe, distribuindo apertos-de-mão a estranhos. Vais sequestrar
o mau-humor vigente no trânsito da cidade e engolirás a chave do cativeiro.
Mesmo que sujeito a críticas, cativarás os teus filhos com mentiras do tipo: —
Sim, meus queridos, a vida será para sempre boa. Torturarás com altas voltagens
de fantasia quem já não sonha tem várias primaveras.
Aliás, liderarás um bando de sonhadores insolentes e todos
os canais de TV anunciarão durante o horário nobre que tu e teus pobres
lunáticos formam a mais adorável quadrilha organizada de todos os tempos. Tu
vais matar as horas com requintes de humanidade, ao passo que apreciarás o
vento no rosto e a paisagem da estrada. Se fores fugir, leva-me contigo. Por
onde quer que tu andes, traficarás todo o arsenal de belas canções que contiver
no teu repertório. Demora-te o quanto puderes nas composições de Lennon,
McCartney e George Harrison. Pode parecer ilícito, mas, tua droga será tua
música.
Serás acusado de clonagem de cartões de natal. Pouco
importa. Hoje em dia, ninguém dá a mínima aos correios. Vais agredir a
palermice dos coquetéis chiques ao declamares os poemas simplórios de Mário
Quintana. Socarás os cenhos das madames siliconadas com a poesia infame de
Charles Bukowski. Como se fosses o velho Hank disfarçado a vestir uma batina,
ameaçarás os convidados com os monólogos de Padre Antônio Vieira. Podes ter
certeza: não ficará canapé sobre canapé. Literatura não enche barriga, meu bem.
Amealha. Isso mesmo. Amealha risos. Tu vais, sim, cobiçar e
plagiar toda espécie de bom humor alheio. Contamina-te deles mais que a um
vírus ou que a tristeza das mãos acenando. Nos teus raros momentos de
desespero, difamarás o Criador e, mesmo assim, de bom grado, ele irá te
perdoar, pois sabe que o crime de ter criado o mundo ainda compensa.
Tu vais causar um alvoroço danado quando vieres a público
assumir, confessar que abusaste da verdade e que estupraste a mentira. Vais
poluir a cidade com serenata e tuas roupas espalhafatosas encharcadas de cor.
Por prazo indeterminado, ficará permitido a ti o porte legal das armas de
afago. Usa a tua imaginação, baby. E voa comigo.
Texto de Eberth Vêncio (disponível em http://www.revistabula.com/5737-para-ser-feliz-mesmo-quando-ninguem-estiver-olhando)
Fotografia dos meninos artistas que ilustra o texto no referido site - autor desconhecido (aceito ajuda quanto à identificação do autor.)
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domingo, 29 de novembro de 2015
Sonho Azul
Levei-a no meu sonho azul
Azul, Azul
Da cor do céu
Levei-a comigo
Sonhou um sonho
Da cor do meu
Deitados no leito da lua
Na frescura, que tremor...
Levei-a no meu sonho azul
Azul, azul
Da cor do mar
Levei-a comigo
Sonhou um sonho
De apaixonar
Deitados na noite das ilhas
Na frescura, que tremor...
Trocava a vida toda
Pela vida deste amor
Meu Sonho Azul
Trocava a vida toda
Pela vida deste amor
Meu Sonho Azul
Poema de Pedro Ayres Magalhães (para uma música do próprio
cantada pela Né Ladeiras).
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terça-feira, 17 de novembro de 2015
Analogia Aquática
Aprendi a minha arte de jogar
com as palavras lançando-as à água, como
pedras, para ver como saltam, ou se afundam, ao acaso
da mão que as lança. E penso no que aconteceria se,
em vez das pedras polidas da ria, fossem versos
o que eu lançasse. As suas sílabas, como pétalas, iriam
dispersar-se numa espuma de ondas, e colar-se-iam
aos pés dos apanhadores de amêijoa, fazendo-os
enterrarem-se num lodo de vogais. Se eu tivesse o seu domínio
das marés, deixaria que os versos subissem até formarem
poemas, e faria com eles a linha branca do litoral. Mas
os pescadores chegam antes de mim, e empurram os barcos
até passarem a rebentação e lançarem as redes, apanhando
vogais, sílabas e palavras, como peixes e algas,
para as venderem ao desbarato
na lota do poema.
Nuno Júdice, A Convergência dos Ventos
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
Na Floresta
[Stopping by the Woods on a Snowy Evening]
Whose woods these are I think I know.
His house is in the village, though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.
My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and frozen lake
The darkest evening of the year.
He gives his harness bells a shake
To ask if there is some mistake
The only other sound's the sweep
Of easy wind and downy flake.
The woods are lovely, dark, and deep,
But I have promises to keep,
And miles to walk before I sleep,
And miles to walk before I sleep.
Robert Frost, The Collected Poems
domingo, 8 de novembro de 2015
Os amigos do Quasimodo
Gárgula.
Por dentro a chuva que a incha, por fora a pedra misteriosa
que a mantém suspensa.
E a boca demoníaca do prodígio despeja-se
no caos.
no caos.
Esse animal erguido ao trono de uma estrela,
que se debruça para onde
escureço. Pelos flancos construo
a criatura. Onde corre o arrepio, das espáduas
para o fundo, com força atenta. Construo
aquela massa de tetas
e unhas, pela espinha, rosas abertas das guelras,
umbigo,
mandíbulas. Até ao centro da sua
árdua talha de estrela.
árdua talha de estrela.
Seu buraco de água na minha boca.
E construindo falo.
Sou lírico, medonho.
Sou lírico, medonho.
Consagro-a no banho baptismal de um poema.
Inauguro.
Fora e dentro inauguro o nome de que morro.
Fora e dentro inauguro o nome de que morro.
Herberto
Helder - Le poème continu
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sábado, 24 de outubro de 2015
Uma torre de ferros
Sim! Eu também gosto muito destes ferros de Paris!
Obrigado Sr. Eiffel!
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