sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Para ser feliz mesmo quando ninguém estiver olhando


Matarás. Sim, matarás. É óbvio que não sou deus pra ficar mandando em toda a gente — mamãe, contudo, julga-me um santo — mesmo assim, afirmo que matarás a inveja, aquele desejo tolo e inviável de seres quem tu não és. Roubarás corações sob pena de ganhares mil anos de perdão. E mais: cometerás perjúrio, de cara lavada, ao declarar que quem começou a amar primeiro foi o outro, quando, na verdade, foste tu o arpoado desde o princípio pelos cupidos, sem o mister das anestesias.

Tomarás de assalto todo e qualquer sorriso com o qual te deparares no caminho. Esquece as pedras. Delas ocupar-se-ão os poetas. Concentra-te só na poeira da estrada e aproveita bem a viagem. Assim que tiveres chance, furta cores. Tu bem sabes que o sol nasce para todos. E por falar em escuridão e luz, farás, sem remorso, o aborto provocado do ódio ainda em fase germinativa. Serás devidamente acusado de receptação e tráfico internacional de afeto. Sonegarás toda demonstração de ciúme e outros sentimentos menores que porventura permearem o teu peito.

Que ninguém julgue isso uma espécie de assédio, pois farás a seguinte chantagem: diz ao ser amado que, em caso de saudade extrema, aplicarás nele um abraço tão apertado que muitos comentarão não ser um abraço desse mundo. Será uma demonstração de carinho tão generosa e honesta que, certamente, demandará unguento e um pé-de-cabra para separar os corpos. Já imaginaste um abraço assim? Haverá quem te acuse de amar o próximo. Não te deixes abater.

Revidarás os formais bons-dias com juros e correção monetária, quem sabe, distribuindo apertos-de-mão a estranhos. Vais sequestrar o mau-humor vigente no trânsito da cidade e engolirás a chave do cativeiro. Mesmo que sujeito a críticas, cativarás os teus filhos com mentiras do tipo: — Sim, meus queridos, a vida será para sempre boa. Torturarás com altas voltagens de fantasia quem já não sonha tem várias primaveras.

Aliás, liderarás um bando de sonhadores insolentes e todos os canais de TV anunciarão durante o horário nobre que tu e teus pobres lunáticos formam a mais adorável quadrilha organizada de todos os tempos. Tu vais matar as horas com requintes de humanidade, ao passo que apreciarás o vento no rosto e a paisagem da estrada. Se fores fugir, leva-me contigo. Por onde quer que tu andes, traficarás todo o arsenal de belas canções que contiver no teu repertório. Demora-te o quanto puderes nas composições de Lennon, McCartney e George Harrison. Pode parecer ilícito, mas, tua droga será tua música.

Serás acusado de clonagem de cartões de natal. Pouco importa. Hoje em dia, ninguém dá a mínima aos correios. Vais agredir a palermice dos coquetéis chiques ao declamares os poemas simplórios de Mário Quintana. Socarás os cenhos das madames siliconadas com a poesia infame de Charles Bukowski. Como se fosses o velho Hank disfarçado a vestir uma batina, ameaçarás os convidados com os monólogos de Padre Antônio Vieira. Podes ter certeza: não ficará canapé sobre canapé. Literatura não enche barriga, meu bem.

Amealha. Isso mesmo. Amealha risos. Tu vais, sim, cobiçar e plagiar toda espécie de bom humor alheio. Contamina-te deles mais que a um vírus ou que a tristeza das mãos acenando. Nos teus raros momentos de desespero, difamarás o Criador e, mesmo assim, de bom grado, ele irá te perdoar, pois sabe que o crime de ter criado o mundo ainda compensa.

Tu vais causar um alvoroço danado quando vieres a público assumir, confessar que abusaste da verdade e que estupraste a mentira. Vais poluir a cidade com serenata e tuas roupas espalhafatosas encharcadas de cor. Por prazo indeterminado, ficará permitido a ti o porte legal das armas de afago. Usa a tua imaginação, baby. E voa comigo.



Fotografia dos meninos artistas que ilustra o texto no referido site - autor desconhecido (aceito ajuda quanto à identificação do autor.)


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domingo, 29 de novembro de 2015

Sonho Azul


Levei-a no meu sonho azul
Azul, Azul
Da cor do céu
Levei-a comigo
Sonhou um sonho
Da cor do meu
Deitados no leito da lua
Na frescura, que tremor...


Levei-a no meu sonho azul
Azul, azul
Da cor do mar
Levei-a comigo
Sonhou um sonho
De apaixonar
Deitados na noite das ilhas
Na frescura, que tremor...


Trocava a vida toda
Pela vida deste amor
Meu Sonho Azul

 


 





 

Trocava a vida toda
Pela vida deste amor
Meu Sonho Azul



Poema de Pedro Ayres Magalhães (para uma música do próprio cantada pela Né Ladeiras).

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terça-feira, 17 de novembro de 2015

Analogia Aquática



Aprendi a minha arte de jogar
com as palavras lançando-as à água, como
pedras, para ver como saltam, ou se afundam, ao acaso
da mão que as lança. E penso no que aconteceria se,
em vez das pedras polidas da ria, fossem versos
o que eu lançasse. As suas sílabas, como pétalas, iriam
dispersar-se numa espuma de ondas, e colar-se-iam
aos pés dos apanhadores de amêijoa, fazendo-os
enterrarem-se num lodo de vogais. Se eu tivesse o seu domínio
das marés, deixaria que os versos subissem até formarem
poemas, e faria com eles a linha branca do litoral. Mas
os pescadores chegam antes de mim, e empurram os barcos
até passarem a rebentação e lançarem as redes, apanhando
vogais, sílabas e palavras, como peixes e algas,
para as venderem ao desbarato
na lota do poema.

Nuno Júdice, A Convergência dos Ventos


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Na Floresta



[Stopping by the Woods on a Snowy Evening]

Whose woods these are I think I know.
His house is in the village, though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.

My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and frozen lake
The darkest evening of the year.


He gives his harness bells a shake
To ask if there is some mistake
The only other sound's the sweep
Of easy wind and downy flake.

The woods are lovely, dark, and deep,
But I have promises to keep,
And miles to walk before I sleep,
And miles to walk before I sleep.

Robert Frost, The Collected Poems


domingo, 8 de novembro de 2015

Os amigos do Quasimodo


Gárgula.


Por dentro a chuva que a incha, por fora a pedra misteriosa
que a mantém suspensa.
E a boca demoníaca do prodígio despeja-se
no caos.






Esse animal erguido ao trono de uma estrela,
que se debruça para onde
escureço. Pelos flancos construo
a criatura. Onde corre o arrepio, das espáduas
para o fundo, com força atenta. Construo
aquela massa de tetas
e unhas, pela espinha, rosas abertas das guelras,
umbigo,
mandíbulas. Até ao centro da sua
árdua talha de estrela.






Seu buraco de água na minha boca.
E construindo falo.
Sou lírico, medonho.




Consagro-a no banho baptismal de um poema.
Inauguro.
Fora e dentro inauguro o nome de que morro.


Herberto Helder - Le poème continu


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sábado, 24 de outubro de 2015

Uma torre de ferros











  

Sim! Eu também gosto muito destes ferros de Paris!
Obrigado Sr. Eiffel!



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