sábado, 25 de abril de 2015

A Rapariga do País de Abril


Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.

Por ti cheguei ao longe aqui tão perto
e vi um chão puro: algarves de ternura.
Quando vieste tudo ficou certo
e achei achando-te o País de Abril.

Manuel Alegre, in "30 Anos de Poesia"




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SEMPRE!




Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'O Nome das Coisas'


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sexta-feira, 24 de abril de 2015

e trago o mês de Abril a voar dentro do peito


Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.

Poema de José Fanha


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segunda-feira, 20 de abril de 2015

Esta gente



Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco


Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis 


Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre 


Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome 


E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada 


Meu canto se renova 
E recomeço a busca 
De um país liberto 
De uma vida limpa 
E de um tempo justo



Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"


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sábado, 21 de março de 2015

Muro das lamentações


Uma jornalista da CNN ouviu falar de um judeu muito velhinho que todos os dias, duas vezes por dia, ia fazer as suas orações ao Muro das Lamentações e decidiu entrevistá-lo.
Pôs-se ao pé do Muro à espera e passado um bocado lá apareceu ele a andar com dificuldade, em direção ao sítio onde costumava rezar.
Esperou uns 45 minutos que o velhinho acabasse de rezar e quando ele voltava, vagarosamente, apoiado na sua bengala, aproximou-se para a entrevista.
- Desculpe, eu chamo-me Rebecca Smith, sou repórter da CNN e gostava de o entrevistar. Como é que se chama?
- Morris Feldman.
- Senhor Feldman, há quanto tempo vem ao Muro rezar?
- Há uns sessenta anos.
- Sessenta anos! Isso é incrível! E o que é que o senhor pede nas suas orações?
- Peço que os cristãos, os judeus e os muçulmanos vivam em paz. Peço que todas as guerras e todo o ódio terminem. Peço que as crianças cresçam em segurança e se tornem adultos responsáveis. Peço amor entre os homens.
- E faz isso há sessenta anos, todos os dias! Como é que o senhor se sente?
- Sinto-me como se estivesse a falar para uma parede...



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sexta-feira, 20 de março de 2015

I am the captain of my soul




Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

 

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishment the scroll,
I am the master of my fate.
I am the captain of my soul.


Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado,
Agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável.

Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem desespero.
Sob os duros golpes do acaso
Minha cabeça sangra, mas continua erguida.

 

Para lá deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra
E a ameaça dos anos.
Encontra e encontrar-me-ás sem medo.

Não importa quão estreito o portão
Quão repleta de castigo a sentença,
Eu sou o senhor de meu destino.
I am the captain of my soul.


Poema “Invictus” de William Ernest Henley
Consta que quando estava preso em Robben Island, Nelson Mandela encontrou nas palavras de Henley a esperança e a força necessárias para manter-se vivo. Mandela conta que sempre que começava a esmorecer, lia e relia o texto, em busca de um "companheiro" para a dor.


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quinta-feira, 19 de março de 2015

… tenho tantas saudades tuas pai ...


Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono – a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas da
morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me

depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem

que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome – porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.


Maria do Rosário Pedreira, in 'Nenhum Nome Depois'


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terça-feira, 10 de março de 2015

Bicycle O'Neill


O homem que pedala, que ped'alma
com o passado a tiracolo,
ao ar vivaz abre as narinas:
tem o por vir na pedaleira

 “O ciclista” de Alexandre O'Neill


Redescubro, contigo, o pedalar eufórico
pelo caminho que a seu tempo se desdobra,
reolhando os beirais - eu que era um teórico
do ar livre - e revendo o passarame à obra.


Avivento, contigo, o coração, já lânguido
das quatro soníferas redondas almofadas
sobre as quais me etangui e bocejei, num trânsito
de corpos em corrida, mas de almas paradas.


Ó ágil e frágil bicicleta andarilha,
ó tubular engonço, ó vaca e andorinha,
ó menina travessa da escola fugida,
ó possuída brincadeira, ó querida filha,
dá-me as asas - trrim! trrim! - pra que eu possa traçar
no quotidiano asfalto um oito exemplar !

“Elogio barroco da bicicleta” de Alexandre O'Neill


O meu marido saiu de casa no dia
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.

“A bicicleta” de Alexandre O'Neill



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quarta-feira, 4 de março de 2015

Barbie … uma boneca camaleónica


A Barbie tornou-se uma boneca universal e um reconhecido fenómeno de mercado. Criada em 1959 (em Portugal surgiu em 1984), esta boneca de 29 cm invadiu o mundo e a Mattel tem sabido explorar esta menina dos “ovos de ouro”.

Trata-se de uma boneca magra, com longos cabelos loiros (na maioria dos modelos), com pernas longas, cintura fina e seios projetados, um padrão estético que se pode discutir mas que tem perdurado todos estes anos como modelo de uma boneca adulta, sensual e charmosa. As crianças gostam, e os pais das crianças também …


Com vista ao alargamento do mercado e visando certamente estimular os colecionadores, foram surgindo bonecas étnicas, com uma surpreendente multiplicidade de roupas, calçados e de cabelos e peles de diversos tons, mas sempre com aquele corpo anatomicamente esguio, modelo perfeito de mulher moderna, arrojada, independente, feminista.


Fui surpreendido por uma coleção de Barbies. Das várias centenas que vi, recolhi imagens de alguns modelos. Partilho-as aqui.
Não liguem à qualidade fotográfica. A ideia agora não é mostrar fotografias, mas Barbies diferentes. Porque não …












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segunda-feira, 2 de março de 2015

Estas pedras que me encantam


As palavras esperam o sono
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra 


A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores 


Há um olhar que entra pelas paredes da terra
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre extática que se alarga 


A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar 


Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge 


A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a água cai sem tempo 



Poema “Vertentes” de António Ramos Rosa, in “Matéria de Amor”


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