sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Uma flor acaso tem beleza?


Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das coisas: são belas?


Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos



Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla.
Antoine de Saint-Exupéry





Determinada flor é, em primeiro lugar, uma renúncia a todas as outras flores. E, no entanto, só com esta condição é bela.
Antoine de Saint-Exupéry




Se pudéssemos ver o milagre duma simples flor, toda a nossa vida mudaria.
Buda


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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

São rosas, Senhor!


Trazia ouro aos Pobres… dava estrelas,
que no jardim azul do céu colhera,
mas, quando El-Rei Dinis desejou vê-las,
floriu, no seu regaço, a primavera.

− «Vede, são rosas brancas, fui colhê-las
para os gafos, Senhor! Julgáveis que era
dinheiro em vez de flores? A Deus prouvera
que em oiro e pão pudesse convertê-las!»

Repete-se o milagre, eternamente:
caem do céu, às horas do poente,
rosas de oiro, vermelhas, a sangrar…

E, à noite, é Ela sempre que, na treva,
sobre a linda Cidade medieva,
desfolha rosas brancas, ao luar!


Soneto de José Campos de Figueiredo


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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Nós ... todos diferentes, todos iguais!






Vocês riem de mim por eu ser diferente, e eu rio de vocês por serem todos iguais.
Bob Marley                   


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sábado, 3 de janeiro de 2015

Contemplo o lago mudo


Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece. 






















O lago nada me diz, 
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo. 


Trémulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?






Poema: Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Tiras de uma ria dourada ...

... quando o sol descansa sobre a água ...










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Namoro

Mandei-lhe uma carta
em papel perfumado
e com letra bonita
dizia ela tinha
um sorriso luminoso
tão triste e gaiato
como o sol de Novembro
brincando de artista
nas acácias floridas
na fímbria do mar
Sua pele macia
era suma-uma
sua pele macia
cheirando a rosas
seus seios laranja
laranja do Loge
eu mandei-lhe essa carta
e ela disse que não


Mandei-lhe um cartão
que o amigo maninho tipografou
'por ti sofre o meu coração'
num canto 'sim'
noutro canto 'não'
e ela o canto do 'não'
dobrou

Mandei-lhe um recado
pela Zefa do sete
pedindo e rogando
de joelhos no chão
pela Sra do Cabo,
pela Sta Efigénia
me desse a ventura
do seu namoro
e ela disse que não


Mandei à Vó Xica,
quimbanda de fama
a areia da marca
que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço
bem forte e seguro
e dele nascesse
um amor como o meu
e o feitiço falhou

Andei barbado,
sujo e descalço
como um monangamba
procuraram por mim
não viu ai não viu ai
não viu Benjamim
e perdido me deram
no morro da Samba


Para me distrair
levaram-me ao baile
do Sr. Januário,
mas ela lá estava
num canto a rir,
contando o meu caso
às moças mais lindas
do bairro operário


Tocaram a rumba
e dancei com ela
e num passo maluco
voamos na sala
qual uma estrela
riscando o céu
e a malta gritou
'Aí Benjamim'


Olhei-a nos olhos
sorriu para mim
pedi-lhe um beijo
lá lá lá lá lá
lá lá lá lá lá
E ela disse que sim


Canção de Sérgio Godinho, com música do Fausto e poema de Viriato Cruz


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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O mar ... sempre o mar ...










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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Capicua ... e Vayorken, a gente diverte-se imenso!


Quando for grande, vou ser prof. de windsurf
E quando danço, rodo e faço "brinc-dance"
Que como a Jane Fonda, é de Vayorken
E Vayorken, a gente diverte-se imenso!

Era para ser Artur e nasci Ana
(Ana quê?) Ana só.
(Ana só?) Sim, sou a Ana.
Era percentil noventa nos anos oitenta
E entre colheradas chorava sempre faminta
Sempre vestida como um mini comunista
Com roupas que a mãe fazia com modelos da revista
Eu queria ser pirosa, vestir-me de cor-de-rosa
Vestir Jane Fonda na ginástica da moda
Com sabrina prateada, licra collant
Cria de pequeno pónei bem escovadas, espampanante
Tinha a mania de pôr as cores a condizer
No meu entender, rosa com vermelho não podia ser
Uma noctívaga que não dormia a sesta
E, de manhã, sempre quis menos conversa
Uma covinha só de um lado da bochecha
Adormecia com o pai e a mesma canção do Zeca
"Dorme, meu menino, a estrela-d'alva"


Era sempre mais Mafalda do que Susaninha
Ai de quem dissesse mal do Sérgio Godinho!
Ainda tenho alguns postais para a gentil menina
Enviados pelos pais de um qualquer destino
E se alguém me perguntar pelo pai, pela mãe
Eu sei, sei, foram para Vayorken, Vayorken
Foram para Vayorken, Vayorken, Vayorken


Quando for grande, vou ser prof. de windsurf
E quando danço, rodo e faço "brinc-dance"
Que como a Jane Fonda, é de Vayorken
E Vayorken, a gente diverte-se imenso!


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domingo, 30 de novembro de 2014

O encanto da água na serra ...


A ÁGUA da chuva desce a ladeira.
É uma água ansiosa.
Faz lagos e rios pequenos, e cheira
A terra a ditosa.

Há muitos que contam a dor e o pranto
De o amor os não qu'rer...
Mas eu, que também não os tenho, o que canto
É outra coisa qualquer.

Fernando Pessoa








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